Florianópolis viveu do final de junho até o dia 7 deste mês uma onda de protestos sem precedentes em sua história recente, liderada por estudantes e motivada pela concessão por parte da Prefeitura da capital de um reajuste nos preços das passagens do transporte coletivo, que entrou em vigor no dia 27 de junho. O aumento foi de 15,6%, em média, mas para algumas linhas do Sul da Ilha, entre elas a do Campeche, subiu 21,95%. No primeiro dia útil após a entrada em vigor do aumento, no dia 28, as manifestações começaram pelo Terminal de Canasvieiras (Tican), no Norte da Ilha, que ficou interrompido das 7h às 13 horas. Após o meio-dia, o movimento ganhou corpo também no centro, onde os manifestantes fecharam o terminal central (Ticen). As manifestações culminaram, no final da tarde, com a interrupção do tráfego na Ponte Colombo Salles, provocando tumultos e discussões, que acabaram gerando alguns confrontos entre manifestantes e policiais. Embora surpreendida pela intensidade dos protestos, no primeiro dia, a prefeita Ângela Amin rechaçou a possibilidade de rever os reajustes. Ela argumentou ainda que, de acordo com as perícias técnicas, os reajustes das passagens poderiam chegar a até 30%, mas que preferiu optar por um reajuste médio de 15,6% para não onerar demais os usuários. “Se a população quer preços mais baixos, vamos ter que reduzir o número de ônibus nas ruas e isso ninguém quer”, declarou. Na terça-feira, as manifestações prosseguiram e resultaram no fechamento temporário de três terminais de integração, em Santo Antônio de Lisboa, Canasvieiras e novamente no Centro da capital. Na madrugada de quarta-feira, dia 30, foi o registrado o incidente mais grave, com o incêndio de três ônibus da empresa Insular, que estavam estacionados numa garagem na Caieira da Barra do Sul. Embora não tenha ficado comprovada a participação de manifestantes no incidente, o fato contribuiu para acirrar os ânimos, transformando a quarta-feira, dia 30, no dia mais violento da onda de protestos, com depredação de ônibus e confrontos. Pela manhã, as manifestações aconteceram no Terminal do Rio Tavares (Tirio), quando um grupo de aproximadamente 100 estudantes conseguiu interromper uma das pistas de acesso ao terminal, chegando a haver enfrentamentos com os policiais. Às 11 horas, o estudantes encerraram a manifestação no local e se dirigiram para o centro da cidade. Durante a tarde, um grupo de manifestantes esteve no Núcleo de Transportes, onde entregou documento solicitando a revogação dos reajustes, pleito novamente rechaçado pelo governo municipal. A situação começou a se agravar a partir das 18 horas, quando cerca de 1,5 mil manifestantes tentaram bloquear o Ticen e foram impedidos pelos policiais. Às 20 horas, houve tumulto generalizado no local, com enfrentamento entre policiais e manifestantes, com o registro de mais de uma dezena de detenções. Policiais teriam usado gás lacrimogêneo, spray pimenta, bombas de efeito moral e até balas de borracha para conter os manifestantes. Na quinta-feira, dia 1o, novamente houve grandes manifestações, principalmente no centro da cidade, que culminaram com o fechamento das duas pontes por cerca de 20 minutos e ocorrência de alguns incidentes e confrontos entre policiais e manifestantes. Não obstante, nesse dia foi dado também o primeiro passo rumo a uma solução para o conflito, com a direção da seccional catarinense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se oferecendo para intermediar negociação entre manifestantes e Prefeitura. Na sexta-feira, dia 2, quinto dia consecutivo de protestos, uma passeata reunindo cerca de 3 mil pessoas, segundo cálculos da Polícia Militar, provocou um grande congestionamento no final da tarde nas pontes e centro da capital. Paralelamente, reunião intermediada pela OAB terminava sem acordo, com a Prefeitura permanecendo irredutível. Na noite do mesmo dia, no entanto, pela primeira vez a prefeita Ângela Amin admitiu a possibilidade de uma redução, mas descartou a retroação aos patamares anteriores. Após uma trégua do movimento durante o final de semana, na segunda-feira foram retomados os protestos, com bloqueios nos terminais do Centro e da Lagoa da Conceição. Na terça-feira, novamente com a intermediação da OAB, foi realizada uma segunda reunião entre manifestantes e representantes da Prefeitura, sem que houvesse acordo. Os manifestantes marcaram uma grande concentração para a quinta-feira, dia 8, que prometia paralisar a cidade, mas na noite de quarta-feira a Justiça Federal de Florianópolis concedeu liminar em ação cautelar impetrada pela OAB suspendendo os reajustes de tarifas e pondo fim ao já histórico conflito.
16 de julho de 2004
