Superverão não acontece e põe em xeque futuro do turismo em Florianópolis

Angelo Poletto Mendes/Redação JC O verão chega ao fim deixando literalmente um travo de amargor na cidade. A fantástica temporada pintada nas previsões oficiais, com milhões de turistas irrigando a economia da capital, não aconteceu. Embora se careça ainda de números finais, estimativas são de que o movimento teria sido até 30% inferior ao do ano anterior, confirmando a decepção. ‘Foi a pior temporada das últimas décadas’, define o hoteleiro Pablo Balbs, proprietário de tradicional hotel no Sul da Ilha. O pífio resultado serve de lição, sem dúvida. Mas para que isso não fique restrito a frases de efeito, Florianópolis precisará vestir também o manto da humildade: apurar e entender as causas do infortunado desempenho, que deve impactar na economia da cidade ao longo do ano. ‘O primeiro erro grave dessa temporada foi essa previsão desastrada de três milhões de turistas, que mais afugentou do ajudou’, afirma Balbs. ‘Numa cidade com tanta gente, o sujeito corre o risco de encontrar até as duas últimas sogras’, brinca o hoteleiro. ‘Quem vai querer vir para uma cidade, com conhecidos problemas de mobilidade, sabendo que virá tanta gente’, reforça o comerciante Arante Monteiro Filho, dono de tradicional restaurante regional. Esse número exagerado, considera ele, ‘foi um tiro no pé’, porque deixou muita gente com medo de vir para cá e gerou intranquilidade até na população. A falsa expectativa teve efeito-dominó: impactou nos preços e ainda levou muitos pequenos e médios comerciantes a investirem e quebrarem a cara. O problema mais grave, no entanto, foi novamente a balneabilidade. Florianópolis se viu embaraçada, mais uma vez, pelo escandaloso drama da poluição nas praias, evidenciado por casos de virose ao longo do período, que alcançaram repercussão nacional. Relatórios de balneabilidade revelam que a cidade atravessou quase todo o verão com cerca de 30% de pontos impróprios para banho, abalando cada vez mais a imagem de ‘destino natureza’ que conquistara no imaginário dos turistas. Até a Praia da Joaquina, de mar grosso e baixíssima densidade ocupacional, esteve ‘imprópria para banho’ durante certo período nesta temporada. ‘No Sul da Ilha não tivemos casos de poluição flagrante, mas imagens de outras praias correram o país e prejudicaram a todos nós’, observou Pablo. ‘Mobilidade complicada o turista até aceita, se adapta, mas praia poluída ele não admite e normalmente não volta mais’, pondera Arante. Com a nova configuração urbana da capital, pautada pelo verticalismo e adensamento populacional, a solução do problema se torna ainda mais complicada. Sem falar, na modificação do cenário urbano da cidade, que vai perdendo originalidade. Outros veem a temporada decepcionante causada mais por questões mercadológicas. A principal, o sumiço dos argentinos que, dessa vez pressionados pela crise econômica e o câmbio desfavorável, vieram em muito menor número. ‘Isso precisa ser muito bem avaliado, porque eles viajaram; precisamos entender porque preferiram outros destinos ao invés de Florianópolis’, ponderou o ex-secretário de Turismo da capital, Vinícius de Luca. O tecnicismo excessivo nas operações turísticas também pesou no caldeirão. A proibição em pleno auge do verão de pagamento em dinheiro nos ônibus da cidade, que ainda tem a passagem mais cara do país; e a necessidade de uso de aplicativo até para um simples passeio à Ilha do Campeche, entre outros. ‘São coisas que também mais atrapalham do que ajudam’, pondera Pablo. A imagem negativa da capital gerada por um episódio de crueldade contra um cão também entra nessa conta. A expectativa é de que a ‘lição’ que possa ser extraída da fraca temporada leve a um planejamento mais cuidadoso para a próxima, para evitar a queda em eventual ciclo vicioso. ‘A cidade precisa ser pensada para todos, turistas e moradores; turistas historicamente em todo o mundo preferem os destinos em que percebem que os habitantes estão satisfeitos com a cidade e os visitantes’, argumenta Arante. Para ele, o primeiro ponto a ser atacado é a questão do saneamento, que inquieta toda população. ‘Precisamos de obras urgentes e, mais do que isso, de ampla divulgação dessas obras’, defendeu. O presidente do Fórum de Turismo da Grande Florianópolis (ForTur), Leandro Mané Ferrari, propõe a criação urgente de um observatório de dados do turismo no estado, para garantir números confiáveis no planejamento da temporada. ‘Precisamos por um ponto final nessa cultura do achômetro’, disparou. (Foto: Lêo Russo/PMF/Divulgação/Arquivo JC).

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