Há muito tempo os autores de histórias em quadrinhos tentam se livrar do estigma de que sua arte é “literatura de segunda categoria”. Foi somente na década de 90 que roteiristas como Alan Moore e Neil Gaiman passaram a desfrutar de respeito digno dos melhores escritores. Imagine então o desafio de um quadrinista ao tentar adaptar um romance clássico. Peter Kuper aceitou a empreitada e escolheu nada menos que “A Metamorfose” (Ed. Conrad, 90 págs., R$ 19,90), uma das obras-primas do escritor tcheco Franz Kafka, considerado um dos maiores do século XX. Na verdade, Kuper já havia trabalhado com o autor na coletânea “Desista!”, de 1995, que reuniu várias estórias curtas. E mais uma vez esteve à altura. O fato é que os quadrinhos são um meio perfeito para o estilo do escritor tcheco. A arte de Kuper, cartunesca e ao mesmo tempo cheia de sombras e rabiscos, combina muito bem com o senso de humor sombrio de Kafka. O autor foi o maior representante, na literatura, do chamado Expressionismo. Suas histórias têm um forte caráter de metáfora, nas quais os limites entre a realidade e o imaginário se perdem e o ser humano vive sufocado por sistemas arbitrários e incompreensíveis. Kuper traduz isso com imagens fortes e surreais, como a do personagem central “correndo” dentro de um relógio como se fosse um hamster movendo a rodinha dentro da jaula. A trama de “A Metamorfose” é uma das mais macabras e surreais de Kafka. O caixeiro-viajante Gregor Samsa simplesmente acorda um dia transformado numa barata gigantesca, sem qualquer explicação pseudocientífica ou mística. A partir dessa premissa aparentemente simples, que para o leitor moderno parece ter saído de um roteiro de filme de terror barato, o escritor fala da deterioração física e existencial do personagem. Samsa simplesmente passa a ser por fora o que ele já estava se tornando por dentro, oprimido por um trabalho fatigante, repetitivo e cheio de contatos humanos impessoais, e por uma família preocupada apenas com seu conforto material. É cômico e ao mesmo tempo trágico ver o pobre diabo tentando a todo custo seguir sua rotina como se nada tivesse acontecido e seus parentes mais preocupados em escondê-lo e isolá-lo do que em prestar qualquer apoio ou ajuda. Talvez outro ponto de união entre o escritor e os quadrinhos seja o reconhecimento tardio. Embora fosse apaixonado por literatura, Kafka teve pouquíssimas obras publicadas ainda em vida. Suas estórias têm forte caráter autobiográfico, apesar do clima surreal. Ele chegou a trabalhar como caixeiro-viajante para sustentar a família (note que “Samsa” soa um pouco como “Kafka”). Teve um pai rígido e extremamente opressor, uma figura que aparece constantemente em sua obra e também marca presença em “A Metamorfose”. Embora Kafka tenha vivido na República Tcheca da virada do século passado, não há como negar que o brasileiro contemporâneo pode se identificar com muitas coisas em suas estórias, como se sentir sufocado e explorado no trabalho, suportar burocracias intermináveis e sem sentido…(Alexandre Winck/Especial NC)
8 de novembro de 2004
