22 de junho de 2005

Volta do frio anima pescadores do Sul da Ilha

Angelo Poletto Mendes/Redação JC

A missa celebrada pelo padre Aílton Rocha no dia 1º de maio, que abençoou os pescadores e abriu oficialmente a temporada do tainha no Campeche, parece que deu resultado. Pouco mais de três semanas depois, aconteceu o lance mais espetacular do ano na capital, com a captura de nada menos do que seis mil tainhas nas redes dos pescadores locais. “Fazia muitos anos que não se pegava tanto peixe num dia só”, exultou o presidente da Associação dos Pescadores Artesanais do Campeche, Aparício Inácio. Até o dia 9 deste mês, de acordo com o pescador, foram capturadas cerca de 11 mil tainhas nas três redes que trabalham atualmente no Campeche.
As tainhas capturadas nas redes locais, estima o pescador, pesam em média 1,5 quilo, o que resultaria num total capturado de aproximadamente 16,5 toneladas. “Já tá bem melhor do que no ano passado”, assinala. Inácio lembra, no entanto, que até a captura desse lance, o desempenho da safra vinha decepcionando. “Até aquele dia, não vinha aparecendo nada e, de repente, deu esse monte de peixe”, rememorou. Depois disso, no entanto, voltou a ocorrer um período de declínio, atribuído pelo pescador à mudança dos ventos e à volta do calor.
Essa ausência de lances, admite o pescador, costuma desmotivar um pouco os pescadores. Apesar disso, Aparício acredita que até o final da safra, no fim deste mês, a expectativa é de captura de pelo menos mais um grande lance, embora dificilmente no mesmo volume do ocorrido em maio. “Quando chegar a lua cheia vai voltar o frio, e as tainhas vão aparecer”, prevê o experiente pescador, filho do quase lendário Deca Rafael Inácio, que teria mantido amizade com o escritor e piloto francês Saint Exupèry nos anos 20.
Aparício conta que o ritual da pesca, durante o período da safra, começa cedo. “A partir das 6 horas o vigia já tá lá a postos e em seguida chegam os remeiros e toda a equipe”, revela. O grande lance do ano ocorrido no Campeche, na sexta-feira, dia 27 de maio, começou pela bandas da rede de Francisco Daniel, o seu Chico, pai do ex-vereador Lázaro Bregue Daniel, no lado norte do Campeche. Por volta das sete e meia da manhã, conta o pescador, o vigia de sua equipe detectou a presença das tainhas, dando a largada para o cerco ao cardume.
A agitação dos pescadores logo atraiu um grande número moradores, surfistas e curiosos, que passaram a ajudar a puxar a rede em direção à praia. Seu Chico calcula que tenham sido capturados nesse lance em torno de dois mil peixes, aproximadamente 3,5 toneladas. A rede que atua no lado sul do Campeche, durante a tarde do mesmo dia, foi contemplada com um lance ainda mais impressionante, que terminaria com a captura de aproximadamente quatro mil peixes. O cerco teve início no meio da tarde e só foi terminar, com a distribuição dos quinhões para os pescadores, a camaradagem e ajudantes, em torno das 11 horas da noite daquele dia. A captura do cardume provocou um clima de euforia na praia, mobilizando pescadores, surfistas e moradores em geral, inclusive crianças e mulheres. Nesse mesmo dia, também foram registrados lances na Barra da Lagoa, no Leste da Ilha.
RITUAL – Umas das atividades pesqueiras mais tradicionais do litoral catarinense, a pesca da tainha obedece um ritual quase imutável ao longo dos anos. O início se dá após a detecção dos cardumes por um vigia, pescador normalmente mais antigo, que se instala nas partes mais altas da praia. Após a localização, a canoa munida de rede dá largada da praia. De lá, um dos pescadores nada cerca de 200 metros até a costa, levando o cabo da rede, recebendo a ajuda no trajeto final de outros pescadores.
Começa então o cerco efetivo do cardume, com a malha sendo lançada em etapas pelos pescadores, com a canoa flutuando em círculos para encurralar as tainhas. Feito o cerco, a canoa retorna à praia e começa o trabalho de puxação da rede, quando um grande número de populares costuma se agregar aos pescadores para trazer o cardume à praia. Todos que ajudaram a puxar a rede costumam ser brindados com pelo menos um ou dois peixes no final da divisão, normalmente comandada pelo dono da canoa.
(Foto: Luís Prates/Mafalda Press/Divulgação/JC)