Alexandre Winck/Especial JC
Apesar das constantes campanhas anti-drogas veiculas pela mídia, o abuso de substâncias químicas e a dependência de drogas, principalmente entre a população mais jovem, não pára de crescer e já atinge índices alarmantes em Santa Catarina, especialmente na capital. Pesquisa recente da Organização Mundial de Saúde mostra que Florianópolis detém a nada honrosa segunda posição entre as capitais brasileiras que registram a maior incidência de consumo de álcool entre os jovens e ainda a terceira colocação no uso de drogas ilegais (maconha, cocaína, crack, ecstasy e outras).
A boa vontade de algumas pessoas muitas vezes tem sido a única alternativa que resta para aqueles que tiveram a vida social, familiar e financeira destruídas pela dependência química. Voltada para a busca de uma solução à problemática das drogas e o resgate da cidadania para muitos jovens, surgiu há quatro anos, no Rio Tavares, a Comunidade Terapêutica Bom Pastor, uma instituição civil, filantrópica e de assistência social que objetiva auxiliar a recuperação dos dependentes.
A instituição é mantida pelo padre Ailton Rocha, ex-pároco na Lagoa da Conceição, com ajuda de alguns voluntários. “Após atuar na pregação durante 12 anos, a comunidade surgiu como complemento de meu sacerdócio”, comenta ele. “Muitas vezes preguei no altar que as pessoas devem fazer caridade, pois ser cristão não é só ir na missa, rezar o terço, ler a Bíblia”, reforça. A pedra de toque para a decisão de criar a comunidade, revela ele, foi um trabalho de cinco anos com jovens na Barra da Lagoa. “Percebi a dificuldade das famílias em lidar com a questão das drogas”. O ex-pároco conta que por iniciativa própria, comprou então o terreno e foi construindo aos poucos a comunidade, com a ajuda de pessoas conhecidas da região.
Hoje, a Bom Pastor está instalada numa ampla área de 10 mil metros quadrados, que dispõe de capela, cozinha, refeitório, duas casas com dormitórios, horta e jardim. A instituição abriga atualmente 11 internos, em fase de recuperação da dependência química, que são atendidos por três monitores voluntários. O trabalho de recuperação, explica ele, é sustentado através da integração de três fundamentos terapêuticos.
O primeiro é a terapia ocupacional, que consiste em atividades para os dependentes, que ensinam disciplina para o convívio sócio-familiar sadio. Incluem limpeza da casa, ajuda no preparo das refeições, manutenção dos jardins e da horta. O segundo envolve a espiritualidade, através da oração, feita antes das refeições, combinada com a reza do terço e participação na missa. Também é feita regularmente uma vigília de oração para pedir o fortalecimento da fé. Por fim, a ordem e disciplina, com cumprimento rigoroso das regras.
Segundo Rocha, o processo de recuperação de um dependente químico costuma levar em média nove meses. Essa questão, salienta ele, é a principal dificuldade durante o tratamento. “As pessoas são impacientes, acham que já podem ir embora depois de 15, 20 dias, isso depois de terem perdido quatro ou cinco anos da vida delas”, pondera. O padre explica que não se trata apenas de parar de usar drogas, mas mudar os próprios hábitos, o que torna importante esse afastamento do convívio social. “Também é importante a mudança espiritual”, assinala.
(Foto: Luís Prates/Mafalda Press/Divulgação/JC)
