Alexandre Winck/Especial JC
Surgidas a partir da Reforma Protestante que contestou ideias do catolicismo no longínqüo Século 16, as igrejas de correntes evangélicas vêm crescendo num ritmo cada vez mais acelerado em todo o Brasil. No início dos anos 80, os fiéis dessa linha religiosa representavam pouco mais de 6,6% da população do país. Em pouco mais de 20 anos, essa participação mais do que dobrou, atingindo 15,6% da população em 2001, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Florianópolis, obviamente, não é exceção nesse contexto e também registra um avanço acentuado das igrejas evangélicas, especialmente no Sul da Ilha. Cânticos de louvor, orações, sermões, sessões de descarrego e gritos emocionados oriundos de modestas casas transformadas em pequenos templos religiosos são cada vez mais comuns na região. Difícil alguma rua de médio porte nos bairros do Sul da Ilha que não abrigue pelo menos uma igreja evangélica. A Tapera, um dos bairros mais populares da região, abriga dezenas de templos religiosos, dos mais variados tipos e tamanhos, alguns convivendo a poucos metros um do outro. Apesar disso, surpreendentemente todos possuem uma clientela cativa, os fiéis, que prestigiam os cultos e garantem sua sobrevivência.
A maior corrente evangélica em atividade no Brasil atualmente, também é a mais antiga, a Assembleia de Deus, que estaria instalada no país desde 1910, portanto, bem próxima do centenário de instalação em nosso território. Segundo o pastor e teólogo da Assembléia de Deus Jesiel Paulino, somente em Florianópolis são cerca de 11 mil membros. De acordo com ele, o crescimento começou a se intensificar a partir da década de 90, quando atingiu um avanço médio de 10% ao ano. Paulino garante que isso tornou-se ainda mais forte nos últimos dois anos, quando a média de expansão subiu para 20% a 25%.
O Sul da Ilha, conforme ele, é a região onde a corrente tem registrado maior crescimento, juntamente com o centro da capital. Na opinião de Jesiel, há duas explicações básicas para a procura crescente pelas igrejas evangélicas no Brasil. O primeiro é a questão da mística da fé. O pastor acredita que a Igreja Católica tornou-se muito racionalizada nos últimos anos. “A fé não se baseia em princípios científicos”, assinala. Ele admite que a fé não existe sem razão, mas não pode ser dominada por ela. O fato dos cultos evangélicos trabalharem com realização de milagres e um clima mais emocional contribui para que se estabeleça essa filosofia mais mística e espiritual, defende Jesiel. “Até por causa disso está ocorrendo essa reação da Renovação Carismática Católica, que busca trazer um pouco mais do aspecto emocional às missas”.
No caso da Assembleia de Deus, assim como outras correntes, o pastor acredita que a expansão também está ligada à procura da igreja por uma conexão com o mundo fora dos templos. “A Assembleia não se considera à parte da sociedade, ela quer se integrar à comunidade e participar da solução dos problemas”. Um dos aspectos dessa linha de atuação foi adotar menos ortodoxia em relação a certos costumes contemporâneos. Essa igreja não condena, por exemplo, os gêneros musicais modernos, como o rock, que são muito atacados pelos católicos. Isso não significa, ressalva ele, que as correntes evangélicas estejam no caminho da secularização, ou seja, aprovar costumes atuais repudiados pelas igrejas cristãs, como o sexo antes do casamento, uso de anticoncepcionais, preservativos, entre outros.
O pastor explica que o Sul da Ilha tem características próprias quanto à forma como a fé se manifesta. Nas regiões mais próximas da área central da cidade, como o Campeche, formado em parte por pessoas de fora de Florianópolis, o público tem nível de escolaridade maior, garante Jesiel. “O Campeche tornou-se uma opção para pessoas que querem ficar próximas do Centro e trabalhar lá sem efetivamente morar naquela parte da Ilha”. Nesse caso, os pastores falam da religião de uma forma mais racional.
Esse perfil, de acordo com ele, muda drasticamente nos bairros do extremo sul, caso do Ribeirão da Ilha. “Ali, trata-se de uma população mais tradicional, o popular ‘manezinho’, nascido aqui”. Segundo ele, esses habitantes são em grande parte pescadores, de formação educacional mais simples. Ali, a abordagem da fé tende a ser mais emocional e mística.
(Foto: Luís Prates/Mafalda Press/Divulgação/JC)
