5 de maio de 2006

Sul da Ilha tem três grupos de apoio contra o alcoolismo

Alexandre Winck/Especial JC

O alcoolismo é uma das mais antigas e também maiores doenças relacionadas ao consumo de substâncias entorpecentes em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que de 10% a 15% da população têm tendência a desenvolver esse mal, seja por predisposição natural ou meio facilitador (amigos que bebem, etc.). Talvez por isso mesmo, o grupo Alcoólicos Anônimos (AA) é o primeiro e ainda o principal grupo de ajuda mútua, criado em 1935 nos Estados Unidos.
No Brasil, o AA tem cerca de dois milhões de membros. Somente na Grande Florianópolis, onde começou a atuar em 1970, conta com 26 grupos, sendo três deles no Sul da Ilha: no Campeche, onde tem oito participantes; na Tapera, com 12; e no Ribeirão da Ilha, também com 12. Todos mantém a característica central do AA, de permitir aos alcoólicos dividir seu problema, suas experiências e sua esperança com outros que sofrem do mesmo problema.
O diretor adjunto do escritório-sede do AA em Florianópolis, Airton (os membros não revelam o nome completo), explica que o conceito do grupo se diferencia pela sua independência em todos os sentidos. O Alcoólicos Anônimos não é ligado a nenhuma instituição, não tem vínculos com religiões, ideologias ou partidos políticos e mantém sua estrutura com as contribuições espontâneas dos participantes, sem cobrar taxas ou mensalidades de qualquer tipo. Não se envolve sequer em controvérsias com a indústria do álcool, como a publicidade de bebidas ou colocação de avisos sobre consumo moderado nas garrafas. “O AA não existe para combater o álcool, e sim para ajudar a pessoa que quer parar de beber”, garante o diretor.
O AA também não faz estatísticas, mas segundo Airton quem segue o programa dificilmente volta a beber. Os grupos se reúnem uma vez por semana e as pessoas têm a possibilidade de falar aos outros participantes sobre sua experiência com o alcoolismo e também sua recuperação, servindo como exemplo. O AA também tem um programa de 12 passos, nos quais a pessoa admite sua impotência diante do álcool, faz uma auto-análise, admite suas falhas e procura repará-las. O programa cita a necessidade de buscar a Deus e a prece, mas “na forma que cada um concebe”.
O diretor explica que não existe um “processo” de parada com o álcool. A pessoa deve simplesmente nunca mais beber o primeiro gole, um dia de cada vez. Ele admite que o grupo não é uma solução milagrosa e muitas vezes a internação é necessária, tanto que o AA facilita o encaminhamento a clínicas quando o caso exige desintoxicação. Ele também não vê grandes mudanças na forma como o álcool é consumido nos últimos anos, a não ser a maior presença de adolescentes e mulheres. “O alcoolismo não distingue classe social, raça, religião, nada”, explica. O diretor informa que a maior dificuldade em relação ao alcoólatra, até pela legalidade e facilidade de consumo, é a negação, ou seja, a pessoa custa a admitir o problema.
Geralmente isso ocorre quando ela atinge o que acredita ser o “fundo do poço”, que pode ser desde um vexame numa festa até uma deterioração total da própria vida. Airton conta que, no seu caso, foi necessário perder um casamento de 16 anos e todo o patrimônio para ver que estava na hora de fazer algo a respeito. O primeiro ano é considerado o período mais difícil, em média, pois a memória do prazer de beber ainda está muito viva e os resultados levam tempo para aparecer, mas são duradouros. “Já temos participantes com mais de 30 anos de AA aqui em Florianópolis”, comemora. (Foto Divulgação/JC)