20 de junho de 2006

Fundação Simpozio, resistência filosófica

Quem passa pela Rua Huberto Rohden, no Campeche, provavelmente já sentiu alguma curiosidade acerca do que estaria por trás das paredes de um conjunto de prédios austero e algo misterioso, que estampa frases pouco ortodoxas. No local, funciona nada menos do que a Biblioteca Superior de Cultura, mais conhecida como Fundação Simpozio, uma entidade sem fins lucrativos e declarada de utilidade pública municipal, que tem a finalidade de promover o estudo clássico da filosofia, incentivar as artes e divulgar a língua auxiliar Esperanto, uma antiga proposta de idioma de caráter “universal”. Por trás das paredes daqueles prédios circula com desenvoltura um homem de 81 anos, o filósofo, professor universitário e idealizador da fundação, Evaldo Pauli, que tem uma vida inteira dedicada à reflexão e produção de conhecimento. Já escreveu 50 livros e garante que planeja chegar a 100, inobstante suas mais de oito décadas de vida. Pauli diz que pretende transformar em livros a enciclopédia da fundação, atualmente disponível apenas pela Internet. A Simpozio também edita uma revista semestral de filosofia em Esperanto. Conta ainda com uma biblioteca de consulta interna, com títulos filosóficos, científicos e artísticos, com destaque para assuntos catarinenses. Funcionam na instituição ainda a Academia Catarinense de Filosofia e a Associação Catarinense de Esperanto. A fundação publica inclusive uma gramática de Esperanto, que está no site da enciclopédia. Mantém cursos regulares de línguas, como esperanto e inglês, assim como oficinas de teatro e música, as quais visam a formação de um núcleo de atividades culturais, como um coral. O próprio professor é o principal financiador da entidade, auxiliado por mais 20 pessoas. “É um ideal”, assegura. Sua meta principal atualmente, contudo, é a elaboração da Enciclopédia Simpozio, voltada à filosofia, história das religiões e de Santa Catarina, com ênfase em Florianópolis, que já conta com 50 volumes e disponível na Internet em duas versões: português e Esperanto. O filósofo garante que o site da enciclopédia já é hoje o mais visitado na UFSC, que é o provedor da fundação. Pauli explica que, embora trabalhe com a proposta de total liberdade de pensamento, a base científica e filosófica da fundação está na chamada linha monista. Desse ponto de vista, a visão de mundo seguida pela maioria das pessoas tem um caráter “fantasioso”, isto é, uma linha dualista que trata o mundo espiritual ou divino e o material como coisas separadas. Para os monistas, embora exista um conceito de divindade, que pode ter vários nomes, o mundo físico faz parte dela, como se fosse uma coisa só. “Imagine isso como as ondas, elas fazem parte do todo maior, que é o oceano”. Isso quer dizer que existe apenas uma realidade, não duas paralelas. “Nós estamos em Deus como as ondas estão no oceano”, defende. Essas idéias foram a base de pensamento do filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibnitz. O professor também acredita que se diz muita bobagem em relação ao “esperanto”, criado no final do século 19, que costuma ser lembrado como uma proposta fracassada de idioma universal. Pauli garante que o esperanto tem a melhor estrutura entre todas as línguas. “Uma criança que aprende esse idioma se desenvolve de 15 a 20 vezes mais rápido que a que usa a língua natal”, garante. Segundo ele, isso ocorre porque os idiomas nacionais tendem a ter muitas regras arbitrárias, enquanto no esperanto tudo teria lógica. “Nessa língua, qualquer palavra pode ser usada como substantivo, verbo ou adjetivo apenas mudando uma letra”. Ele rejeita que seja uma língua que “ninguém sabe falar”, como alega a letra da música “Miséria”, dos Titãs. “Mantemos contato assim com organismos internacionais de vários países”. garante. ESPERANTO – O Esperanto foi criação do professor polonês Lázaro Zamenhoff, no final do século 19, que vivia numa região habitada por muitas pessoas de idiomas e culturas diferentes, que se odiavam. Ainda criança, teve o sonho de trazer união aos povos através de uma língua comum. Inicialmente pensou no latim e grego, mas as considerou muito complicadas. Também achou os idiomas nacionais modernos muito difíceis, por isso resolveu que deveria ser um idioma novo, neutro, supra-nacional. A versão final foi publicada em 1887, com influência de várias línguas e uma grande simplificação das gramáticas tradicionais. Mais de um século depois, Zamenhoff não realizou seu sonho de unir os povos, mas há diversas entidades espalhadas pelo mundo dedicadas a divulgar seu idioma. (Texto: Alexandre Winck/Especial/JC) (Foto: Luís Prates/Divulgação/JC)