3 de agosto de 2009

Uby, o vendedor de poesia

Angelo Poletto Mendes/Redação JC

A vida nem sempre foi poesia para Ubirajara Alves de Oliveira, 50 anos, gaúcho de Porto Alegre, radicado na Praia da Armação, no Sul da Ilha, há quase 15 anos. Oriundo de família humilde, seis irmãos, teve que bater cabeça para sobreviver na periferia da capital gaúcha. Aos 18 anos, contudo, durante uma furtiva folheada num livro de Mário Quintana, na antiga Livraria do Globo, foi picado pela ‘mosca azul’ da poesia. O toque mágico da arte mudou para sempre sua vida. Antes de virar poeta, ainda chegou a ser vendedor de imagens sacras, que emoldurava e oferecia porta a porta pelas vilas e interior gaúcho. “Só aos 27 anos escrevi meu primeiro verso, rabiscado num caderno escondido”, conta.
Aos 29, após casar-se com sua companheira desde então, Adriana Oliveira, deixou a timidez de lado e passou a fazer e vender poesia pelos bares da vida. Ubirajara virou Uby Oliveira, o poeta. Sempre acompanhado de sua indefectível mochila, na qual carrega um arsenal poético que envolve cartões ilustrados, foto-poemas e a ‘caixinha do novo vício’, uma prosaica carteira de cigarros pintada e guarnecida com 20 poemas, Uby virou figura carimbada nas noites da capital e do Sul da Ilha. Freqüenta bares e points noturnos.
Através da venda de seus versos, comprou terreno, construiu casa e mantém duas filhas na escola. Vive da poesia. Uby costuma sair todos os dias às ruas para vender poesia, faça chuva ou sol. Sua motivação é a própria vida. “Gosto de falar com as pessoas”, resume o poeta, que não costuma se abalar com recusas. Calejado pelo tempo de ofício, sempre tem na ponta da língua uma frase para quebrar resistências. “Porque estás triste, a vida é tão bela”, é um de seus bordões. O segredo para tanta força, ele não esconde: “costumo fazer uma preparação antes de sair de casa, que envolve música pra cima, contemplar a natureza, cantar e até dançar, sozinho; um café forte também ajuda”.
Uby é um grande vendedor. Mas também é poeta. Seu verso é singelo, mas ritmado, inspirado e por vezes mordaz. Seu tema são as urbanidades, o homem que bebe sozinho, a pessoa que passa triste, a moça que ri. A poesia nasce a qualquer momento, não existe um rito. ‘Se tu fores doce/o tempo todo/sobrará açúcar/no meu café/da manhã’. Aponta como referências para sua obra algo de Leminski, dos gaúchos Ione França e Ricardo Silvestrin e de outros poetas esparsos. E deixa o recado: ‘ame a vida/mesmo que ela seja/amante traidora’. (Foto: Divulgação/JC)