25 de setembro de 2009

Neném, guardião da memória manezinha

Nem tudo está perdido para a memória cultural da Ilha, apesar do avanço implacável de outras culturas e do desaparecimento de históricos defensores da tradição local. Sem alarde e longe dos holofotes, um abnegado ilhéu trabalha para registrar e documentar as principais manifestações artísticas, culturais e religiosas da capital catarinense há mais de três décadas. Inicialmente, através de fotografias e, mais recentemente, por meio de filmes. A paixão pela cultura local e a percepção da importância de preservá-la, no entanto, são ainda mais antigas na vida do ilhéu Ademir Damasco, nascido em Ratones, em 1953. Aos 13 anos, em busca de proximidade com a escola, a família se mudou para a Trindade. O afastamento do bucólico interior da Ilha, levou-o a perceber que deixava para traz um tesouro cultural, que merecia atenção. Paralelamente ao seu ganho-pão como bancário, que exerceu por 13 anos no extinto Meridional, em 1978 passou a atuar também como fotógrafo, registrando a cultura nativa. No final dos anos 80, veio morar no Campeche, e a vocação para registro da memória ganhou impulso. Em 95, após um curso de direção de cinema, de forma quase artesanal, produziu seu primeiro filme: “Meninos do Surfe’’, retratando o dia-a-dia de uma escolinha de surfe. Após, sua filmografia sofre uma interrupção, para ressurgir em 2005 e não parar mais, com a compra de uma moderna filmadora digital. Neste ano, produziu “Seu Chico e o Presente’, que relata uma viagem feita por ele e o conhecido Chico Dóca, do Campeche, para levar duas tainhas ovadas para um amigo em Ratones. “Antigamente, se ia de um distrito ao outro para levar um presente a um amigo, era uma tradição”, comenta. Em 2006, produziu ‘Pesca da Tainha’, que registra a rotina dos pescadores do Campeche durante a tradicional safra do pescado. O filme, de 52 minutos, lançado em 2007, fez amplo sucesso no circuito local. Em 2008, vieram ‘Farinhada’ e ‘Meninos do Engenho’, o primeiro retratando o ciclo da produção de farinha num engenho nativo e, o segundo, mostrando a participação das crianças nesse ciclo. Recentemente, lançou mais três curtas: ‘Busca da Purificação’, abordando a tradição do banho santo nas sextas-feiras santas; ‘Bandeira do Divino’, mostrando o cortejo da bandeira, que antecede a festa; e ‘Fé da Dona Nicota’, mostrando a religiosidade de uma conhecida personagem local. Nos seus planos estão mais uma série de histórias nativas. “Nós hoje já somos minoria e nossa cultura está desaparecendo, então alguém precisa fazer esse trabalho de registro”, justifica Neném, apelido que carrega desde a infância. Ele próprio banca a maior parte dos custos de seu trabalho. “Sou um nativo que filma os nativos para os nativos e os migrantes”, sintetiza. (Foto: Divulgação/JC)