Angelo Poletto Mendes/Redação JC
Cada moto que estaciona defronte ao Mercado Dezimas, no Campeche, provoca calafrios na gerente do estabelecimento, Valdirene Madalena de Farias. Ela ainda tem viva na lembrança o roubo à mão armada ocorrido no mercado há poucos meses, quando dois assaltantes invadiram o local e ameaçaram os funcionários. No início de agosto, o estabelecimento foi alvo de ladrões novamente, só que dessa foi um arrombamento ocorrido de madrugada, que deixou um rastro de prejuízos estimado em mais de R$ 6 mil. “A gente treme a cada moto que chega”, admite ela.
Por causa dos roubos, a loja está substituindo janelas por grades e concreto, e priorizando gastos com segurança. O sentimento de Valdirene é generalizado na região. A maioria dos estabelecimentos, sem falar nas residências, tem histórias parecidas para contar. O tradicional Mercado Baiá também passou recentemente por momentos dramáticos. “Em pleno meio-dia, dois elementos chegaram, com capuzes, um deles ameaçou com revólver e levou o caixa, em poucos minutos”, relata o gerente Édio Cirilo. O mercado dispõe de alarme e câmeras, que registraram toda cena. “Entregamos à polícia, mas até agora não tivemos retorno”, acrescenta.
Outro alvo recente dos ladrões foi a loja LBella Jóias, recém aberta no bairro, que foi surpreendida por um ladrão armado, que levou praticamente todo seu estoque de prataria. A maioria dos comerciantes da região é unânime em apontar a causa da nova onda de roubos que atinge a região: a deficiência policial. “Há uma deficiência flagrante de policiamento, falta ronda, falta blitz, falta tudo”, desabafa Édio. “Essa insegurança atrapalha os investimentos, desanima, tem hora que dá vontade de desistir”, assinala. “A polícia abandonou o Sul da Ilha, à noite então o Campeche fica abandonado, é raro ver uma viatura circulando”, reforça Valdirene.
Clênio Bragagnolo, do Conselho de Segurança da Planície do Campeche (Conseg), faz coro aos comerciantes. Para ele, houve um esvaziamento da 3ª Companhia de Polícia Militar, instalada no Campeche, que atende as costas Sul e Leste da Ilha. A unidade chegou a ter um efetivo de 155 policiais quando iniciou atividades, em outubro de 2003 (JC, Edição 43). Atualmente, segundo Clênio, que participou de reunião dos Consegs com o governador e a cúpula da Segurança Pública estadual, no início de setembro, teria apenas 85 policiais. Deste contingente, conforme ele, apenas 50 estavam na ativa no início de setembro, estando o restante afastado por licença médica, férias ou processo de aposentadoria.
“A companhia está com o quadro muito reduzido”, assinala Clênio, que alerta ainda para distorções no processo de aparelhamento das unidades da Polícia Militar. “Na Assembleia Legislativa, por exemplo, temos mais policiais do que na companhia do Campeche”, afirma. “E não são soldados comuns, tem policial de patente lotado por lá, servindo até cafezinho”, acrescenta. A situação estaria desmobilizando até os próprios Consegs, denuncia Clênio. “Tem bairros em que até os membros dos Consegs são ameaçados pela bandidagem”.
(Foto: Luís Prates/Divulgação/Arquivo/JC)
