14 de junho de 2010

Emoção pede passagem no céu do Campeche

A ligação do Campeche com a aviação é antiga e emblemática, já que o bairro foi sede do primeiro aeroporto da capital, onde pousaram por dezenas de vezes, entre os anos 20 e 30 do século passado, os famosos aviões dos correios aéreos franceses, que teriam trazido, entre seus pilotos, o lendário escritor francês Antoine de Saint Exupèry. Até hoje, sua estadia no Campeche suscita polêmica, com alguns defendendo com unhas e dentes que ele esteve no bairro e outros contestando, também de forma veemente, a veracidade desta presença em solo ‘campecheano’. Inobstante a dúvida, a verdade é que o vínculo do Campeche com a aviação é cristalino e incontestável, transcendendo a presença ou não de Exupéry, apelidado por estas bandas de Zeperri. O bairro abriga uma valiosa estrutura remanescente do atividade aeroportuária, fica localizado há poucos quilômetros da sede da Base Aérea da capital e do aeroporto de Florianópolis, e possui dezenas de ruas e empreendimentos com nomes que remetem à aviação francesa e ao célebre escritor. O culto à aviação é latente até mesmo em algumas atividades de lazer praticadas na região, como o aeromodelismo, que possui dezenas de adeptos. Depois de um período de relativo ostracismo, por conta de conflitos com alguns moradores das cercanias do campo da Base Aérea, a atividade voltou a ganhar força na região, graças a uma nova tecnologia. “Agora os aparelhos são movidos à eletricidade, com raio de ação menor, não passam em cima das casas, e muito leves”, explica o técnico em saneamento Conrado Longo, 35anos, praticante há dois anos e meio. Para ordenar a atividade e o congraçamento dos praticantes, foi criado há quase três anos o GAZ (Grupo de Aeromodelismo Zeperri), que já possui mais de 15 associados, a maioria da própria região do Campeche. O grupo se reúne todos os sábados pela manhã, no antigo campo de aviação, para praticar a atividade, muitos levando família e filhos para acompanhar a brincadeira. “A galera se reúne, troca idéia, as vezes faz um churrasco ali mesmo, monta os aeros (coloca bateria e hélice), liga o rádio e joga pra cima”, relata. O aeromodelismo é praticado na região desde os anos 70, mas sofreu uma interrupção por conta de desavenças, decorrentes de alguns acidentes com aparelhos. “Caía avião nas casas, quebrava telhado e tudo mais, porque qualquer interferência de rádio causava pane; agora, com os novos rádios isso não acontece; antes operavam na freqüência de 75 mega e hoje é de 2,2 giga, que é virtualmente impossível de ter inferência”, explica. “Por causa disso, tem muita gente da velha guarda voltando a praticar”, acrescenta. Alguns adaptam até minicâmeras nos aparelhos, para filmar os vôos que executam e a vista aérea do Campeche. A paixão pelo aeromodelismo, revela Conrado, já se refletiu até na sua vida familiar, atraindo a filha para o ramo da aeronáutica. “Minha filha acompanha e em função disso acabou pegando gosto e quer ser piloto, já está até fazendo curso de iniciação aeronáutica no aeroclube de São José”. O aeromodelista salienta ainda que o GAZ não é um grupo fechado. “Qualquer um pode chegar, não é um clube, e sim um grupo, recebemos todo mundo numa boa, quem quiser aprender, saber mais sobre a prática, é só chegar”, convida. (Foto: Willi Heisterkamp/Divulgação/JC)