14 de fevereiro de 2011

“LANCEI âncoras no mar do Campeche”. Entrevista com Luiz Carlos Prates

Angelo Poletto Mendes/Redação JC

Um comentário contundente, bem ao seu estilo, criticando a disseminação do crédito fácil para aquisição de veículos automotores pelas classes populares, feito no final do ano passado na televisão, ganhou proporções inesperadas e acabou provocando o afastamento de um dos nomes mais conhecidos da comunicação catarinense. Depois de quase 23 anos atuando no grupo gaúcho RBS, com participações destacadas no rádio, televisão e jornal, o polêmico psicólogo e jornalista gaúcho Luiz Carlos Prates foi sumariamente demitido pela empresa, decisão tornada pública através de uma sucinta nota publicada no dia 12/01 no principal jornal do grupo (Diário Catarinense) em Santa Catarina. Morador do Campeche há mais de 20 anos, o comunicador revela nesta entrevista, concedida ao JC por email, no dia 13/01/11, detalhes da história que culminou com sua saída da RBS e de sua paixão pelo bairro.

JC- O comentário polêmico, que teria sido o motivo de seu afastamento, foi elaborado integralmente por iniciativa do senhor?
Totalmente. Jamais fiz comentário previamente escrito ou obrigado por alguém, jamais. A escolha do tema, sim. Essa, não raro, é sugerida, discutida, mas o jeito e o trejeito de fazê-lo sempre foram meus.
JC- A repercussão deste comentário específico, que ganhou destaque inclusive em nível nacional, lhe surpreendeu?
Sim, nada houve de errado no comentário, fiz observações, constatações, só que hoje vivemos o indigesto “politicamente correto”… Digo não à covardia do bom mocismo, vou direto à ferida, e é isso o que dói em muita gente, essa gente gosta de ser enganada… E aí, o enganador vai ao sucesso… É preciso ser mais claro…?
JC- O tom de seus comentários no rádio e televisão, sempre incisivos e contundentes, advinha de alguma orientação da empresa ou era uma característica pessoal sua?
Marca pessoal, sempre acreditei que se você falar manso, educadamente, as pessoas bocejam. É preciso acordá-las. E eu sempre quis acordá-las, isto é, ajudá-las. “Acordadas” elas vão ao ódio ou ao amor. E isso é bom, ouviram o que tinham que ouvir. Ou já estavam acordadas, e concordam, ou estavam “dormindo” e odeiam ser lembradas de que “dormiam” nos maus costumes da vida leva a todos os danos…
JC- Qual foi o seu sentimento pessoal e profissional diante da avalanche de críticas ao seu comentário, inclusive algumas oriundas de colegas da própria empresa?
Nenhuma surpresa, teus piores inimigos estão na tua trincheira, já diziam os primeiros soldados da vida… Ademais, a inveja faz parte da vida, mas seca os ossos, dizia o rei Salomão… Melhor assim que ser um medíocre ignorado ou um sabujo sem graça…
JC- A pressão decorrente do episódio interferiu na sua rotina diária, provocou muito desgaste emocional na família?
O que dói mais, ou doeu, foi a “distorção” do comentário, a edição bandida que foi feita para que espúrios objetivos fossem atingidos… Isso dói, mas editar para um lado ou para o outro de acordo com o interesse de alguém sempre fez parte ou da imprensa ou de grupos pervertidos…
JC- O senhor revelou, no rádio, que guarda profunda mágoa de pelo menos cinco pessoas em relação ao episódio; gostaria de revelar quem são?
Não, mas vou encontrá-los um dia, pessoalmente. E aí “conversaremos”. Uma conversa civilizada, bem como aprendi no galpão onde nasci…
JC- O que o senhor acha que foi determinante para sua demissão?
Traições da “trincheira”, pressões, e viver me preocupando com os outros, com suas ações que lhes podem prejudicar. Sou psicólogo por missão terrena e não por dinheiro de “consultório”, seja ele diante do microfone ou em qualquer lugar. Meu conselho? Se quiseres ser longevo, em qualquer lugar, mascara-te, sejas dissimulados e evites a verdade. Ah, será muito apreciado… pelos iguais a ti…
JC- Como aconteceu a demissão efetiva, foi de surpresa na volta das férias, ou o senhor já tinha sido avisado que seria afastado?
Completa “surpresa”, afinal, nunca faltei com qualquer obrigação de trabalho e muito menos do ponto de vista ético.
JC- O senhor acredita que RBS foi pressionada a demiti-lo? Guarda mágoa da atitude da empresa?
Sim e não.
JC- Qual o seu futuro profissional; já existem negociações para sua volta à mídia em alguma outra empresa?
As pressões são perigosas… mas vou lutar contra elas e voltar, é claro, questão de dias…
Nota da Redação: No dia 21/01/11, Luiz Carlos Prates foi anunciado como novo contratado do SBT/SC;
JC- Como foi a sua rotina no Campeche e no âmbito familiar, nesse período de transição pessoal e profissional?
Rotina? Quase 10 horas de leitura por dia, muitas conversas com amigos e planos sendo discutidos e alinhavados. Vamos à luta com um novo canhão, a luta continua, companheiros, não é assim que diziam?
JC- Em função de eventuais circunstâncias profissionais, o senhor admite a possibilidade de deixar o Campeche?
Nem pensar. Tenho dois convites, mas não os cogito, respeito-os e agradeço. Lancei âncoras no mar do Campeche.
(Foto: Luís Prates/Divulgação/Arquivo/JC)