Uma flor num buraco da calçada
(*)Henrique do Valle
Quando soltaram os cachorros loucos
eu estava fazendo chá de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira e bombeando medo
larguei as ervas e danado precipitei-me à janela
de onde vi enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma
a espuma invadia a rua e abraçava os postes,
que caíam cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas que alucinadas enchiam o ar de berros
depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão e uma flor quase despercebida
(*) Poeta gaúcho, 1960-1981
