Angelo Poletto Mendes/Redação JC
Os tempos de água abundante no Sul da Ilha, mesmo durante as temporadas mais quentes, ficaram definitivamente para trás. A região corre o risco de enfrentar pela primeira vez na sua história um incomum racionamento de água, que pode ser decretada ainda nesta temporada. Esse quadro dram
ático decorre principalmente do descompasso crescente entre o consumo e a capacidade de atendimento do sistema de água da região, agravado por circunstâncias climáticas desfavoráveis.
Principal manancial de água da capital, responsável pelo abastecimento de todo o Sul da Ilha e também Leste da Ilha (Lagoa da Conceição e Barra da Lagoa), num contingente estimado em mais de 140 mil consumidores, a Lagoa do Peri vem enfrentando um declínio histórico de seu reservatório. Com volume total estimado em 20 milhões de litros, estaria atualmente pelo menos 20% abaixo do normal, impondo restrições cada vez maiores à captação no local.
O recuo flagrante nas margens da lagoa acendeu o sinal de alerta para o risco colapso do manancial, suscetível à salinização. Engenheiros sustentam que esse risco é mínimo e ainda alegam que a lagoa é profunda em seu miolo, e que o encolhimento nas margens não seria o parâmetro ideal sobre seus volumes. “O risco de salinização está absolutamente sob controle; fazemos acompanhamento diários dos níveis da lagoa”, garante o diretor de Operação e Expansão da Casan, Fábio Krieger.
Mesmo assim, a empresa vem adotando consecutivas reduções na captação, que hoje já estariam 75% abaixo do normal. No verão, a empresa pretende reduzir ainda mais essa captação, ficando em apenas 15% dos volumes permitidos pela outorga pública, que é de 200 litros por segundo. Com a captação mais restrita, o abastecimento da Costa Leste-Sul é complementado com água extraída do lençol freático do Campeche, por meio de 12 poços artesianos, no Campeche, Rio Tavares e Ribeirão da Ilha.
A maioria dos poços, revela Krieger, possui água de boa qualidade, que facilita o tratamento e inserção na rede, mas o conjunto todo de poços é insuficiente para compensar a perda da fonte principal, gerando déficit na capacidade de fornecimento. O próprio lençol freático, contudo, possui diversos impeditivos para responder de forma sistemática como fonte principal de abastecimento. O sistema depende de chuvas para recarga, e cada poço necessita de períodos de interrupção para evitar a secagem. Além disso, também é suscetível de salinização, no caso de extração exacerbada e contínua por períodos mais longos.
Com o crescimento cada vez mais vertiginoso do Campeche e região e a sucessiva redução dos índices pluviométricos, esse desequilíbrio vem se acentuando de forma cada vez mais latente. “O racionamento é o nosso plano B, para situações críticas, mas se a estiagem persistir talvez tenha que se adotar”, admite o dirigente.
Para compensar as perdas do manancial principal, a Casan informa que está finalmente licitando a contratação de obras de integração da rede do Sul da Ilha ao sistema municipal, permitindo a acesso de água oriunda dos mananciais de Santo Amaro da Imperatriz, que abastecem cerca de 60% do município. Essa operação, contudo, ainda deve demandar pelo menos seis meses para conclusão.
A empresa informa que também está concluindo a conexão de alguns poços no Rio Vermelho à rede da Barra da Lagoa, desafogando um pouco mais o sistema do Sul da Ilha. Paralelamente, está investindo ainda numa ampla campanha, em escala estadual, defendendo nova cultura no manuseio e consumo do insumo. A campanha propõe mudanças nos hábitos do dia a dia para economia de água. “Felizmente, até agora temos obtido bons resultados nesse sentido, senão a situação poderia estar muito mais grave”, assinala Krieger. (Foto: Fernando Clark Nunes/Divulgação/JC)
