Angelo Poletto Mendes/Redação JC
A conta da revisão do plano diretor da capital aprovada há pouco mais de dois anos chegou de forma contundente para a população do Sul da Ilha. A proliferação de grandes prédios pelas principais avenidas do Campeche e região, de proporções impensáveis até há dois anos, impressiona e começa a gerar um clima de crescente insatisfação na maioria da população, que se estende também a outros bairros da região.
O primeiro brado mais forte contra a ‘tomada do Sul da Ilha’ aconteceu no início de junho (07/06), com robusta manifestação contra suposta edificação de sete andares projetada para a orla do balneário da Armação, que já estaria inclusive sendo divulgada na internet. O evento promovido pelo denominado Fórum Popular do Distrito do Pântano do Sul teve apoio de diversas entidades comunitárias e sociais, entre elas a Associação dos Moradores do Campeche (Amocam), e reuniu cerca de 600 pessoas.
‘Foi uma manifestação muito exitosa, que levaremos adiante com outras ações; pretendemos levar nosso protesto também à Câmara Municipal, Prefeitura e Ministério Público estadual e federal’, assinalou a arquiteta Zoraia Vargas Guimarães, diretora da Associação dos Moradores da Lagoa do Peri, que integra o fórum. ‘Queremos a revogação da Armação como ‘área de desenvolvimento incentivada’ (mecanismo criado na revisão do plano diretor que flexibiliza o gabarito predial em quase toda a Ilha.)’, afirmou.
Os motivos de repúdio ao adensamento são bem conhecidos e comuns a todo o Sul da Ilha: absoluta carência de infra-estrutura (zero esgoto tratado, água por um fio e mobilidade à beira do colapso, entre outros). ‘A Lagoa do Peri, que é a principal fonte de água para a região, está sempre em estado crítico’, ressalta Zoraia. O motivo da adesão regional ao protesto da Armação também é claro: antes restritas às principais vias, a verticalização começa a desembocar nas pequenas ruas e vai bater na porta de todos, em qualquer recanto do Sul da Ilha e da própria cidade.
Ex-delegado distrital do Campeche no Plano Diretor Participativo, extinto pelo governo municipal em 2017, Ataíde Silva lembra que até há pouco mais de dois anos o plano diretor permitia no máximo dois andares no Campeche (mais ático e pilotis, em áreas específicas). ‘Na revisão, até aceitamos sete, mas somente nas avenidas principais da região’, comentou. ‘Nada do que pleiteamos na audiência pública local foi levado em conta e hoje praticamente nenhuma rua do bairro está imune à verticalização’, avisou. O consenso comunitário é de que o plano diretor privilegiou o grande capital em detrimento da coletividade.
O protesto ocorrido na Armação tende a resultar em ações similares no Campeche e Rio Tavares, e pode se estender a outras regiões. Estimativas dão conta que só na Avenida Campeche haveria atualmente cerca de 1.500 apartamentos em construção. ‘Parte da avenida parece um palco de guerra, intransitável, afetando a população e o comércio; de onde virá água para atender tanta gente, sem falar no destino do esgoto e na mobilidade’, lamentou a bióloga e ex-presidente da Amocam, Tereza Barbosa.
‘O destino do esgoto de muitos prédios em áreas mais baixas, mesmo que tratados, fatalmente será o mar, poluindo a praia’, faz coro o maricultor Ruy Wolff, do Comitê Popular de Luta do Campeche. A insatisfação alcança até mesmo alguns corretores de imóveis, teoricamente beneficiários de tanto ‘produto para vender’. ‘Corremos o risco de no médio prazo ‘matarmos a galinha dos ovos de ouro’, acabando com a atratividade da nossa região’, comentou um corretor, que não quis ter o nome citado.
‘O plano diretor infelizmente saiu do oito para o oitenta, permitindo praticamente tudo’, comentou outro, de perfil liberal, que também prefere ter o nome preservado. Proprietária do terreno alvo da manifestação ocorrida na Armação, a incorporadora Atalantaya se manifestou. Segunda a diretoria da empresa, o projeto ainda está em estudos, não tem a gabaritagem definida e nem está autorizado à divulgação comercial, mas ‘respeitará rigorosamente’ as regras do plano diretor. (Foto: Sérgio Aspar/Divulgação/JC)
