Angelo Poletto Mendes/Redação JC
Antigo patinho-feio da cidade, o Sul da Ilha virou a região mais cobiçada e valorizada do litoral catarinense. Concentra, a olhos vistos, volume excepcional de obras prediais, que suplanta outros bairros nobres da Ilha e possivelmente até mesmo a meca da construção civil (Balneário Camboriú) em termos proporcionais. Nesse mesmo instante, uma nova área no Sul da Ilha deve estar sendo cercada por indefectíveis tapumes, para abrigar novo edifício e mudar cada vez mais intensamente o perfil urbano de tradicionais bairros residenciais da região.
Os mais impactados até aqui são o Campeche, Rio Tavares e Morro das Pedras, mas gradativamente o modelo avança também para Ribeirão da Ilha, Armação e extremo-sul. Só na Avenida Campeche, principal via litorânea regional, as estimativas são de que estariam em edificação atualmente cerca de 1.500 apartamentos, mas várias outras áreas do entorno já estão na iminência de receberem novos prédios. No Rio Tavares, veio à tona recentemente um impressionante projeto de conjunto de torres de até 12 andares, compatível para abrigar cerca de três mil pessoas, que literalmente abalou a comunidade local.
A concentração predial cada vez mais acelerada e verticalizada – graças a diversas chicanas do atual plano diretor em vigor após a polêmica revisão de 2023 e decretos complementares, que permite multiplicar gabaritos prediais em praticamente toda a região – resulta em volumosos dividendos para o município. Por isso, vem sendo fomentada sem cerimônia pela gestão municipal com apoio da classe dirigente, proponentes e vencedores que são na imposição da atual modelo durante o processo revisional do plano diretor, sob o argumento principal de centralidades – criação de áreas urbanas adensadas e autossuficiente em serviços.
Os impactos estruturais dessa modelagem construtiva, no entanto, geram também crescente insatisfação popular. Liderada por associações de moradores e entidades comunitárias locais, pelo menos três manifestações mais robustas já ocorreram nos últimos 60 dias reunindo centenas de pessoas contrárias à verticalização predial do litoral. O movimento comunitário na região está se unificando, como tem ficado evidente nos protestos, e começa a se integrar também aos de outras regiões impactadas, como Ingleses, Santinho, Jurerê e até Bom Abrigo.
Com a gradativa escassez de áreas maiores, mesmo lotes e terrenos convencionais de até 500 metros quadrados têm servido a projetos prediais adensados. ‘Temos visto várias casas serem demolidas para abrigarem prédios com dezenas de apartamentos em espaços incompatíveis de conter sequer uma estação de esgoto minimamente dimensionada; e ainda sem garagem, impactando no espaço público’, comenta a presidente da Associação dos Moradores do Novo Campeche, Maria Izabel Poerner. ‘Onde vai parar o esgoto de tanta gente, numa região que não possui sequer rede de saneamento?’, questiona.
‘Estamos buscando todos os canais possíveis para questionar essa expansão desenfreada, mas até agora não conseguimos respostas e tudo indica que o caminho será a judicialização’, lamenta a arquiteta Zoraia Vargas Guimarães, do Fórum Popular do Distrito do Pântano do Sul. Duas regras urbanísticas que fomentam ainda mais a verticalização, impostas por decreto municipal após a vigência do plano diretor, já foram alvo de manifestações do Ministério Público Estadual. Em maio, por meio de alerta às autoridades e, no começo de julho, através de ação direta de inconstitucionalidade. Ambas, por não contemplarem o crivo popular antes de vigorarem, como determina o Estatuto das Cidades.
O próprio processo revisional, conforme lideranças comunitárias, conteria uma série de pontos questionáveis. Não obstante, a expansão predial parece inexorável, tornando cada vez mais latente a precária infraestrutura regional e impondo novas necessidades. Por isso, além da briga contra a legalidade da expansão, algumas lideranças defendem iniciar nova frente de luta e trabalhar também por compensações urbanísticas imediatas para novos gargalos. ‘A insegurança no trânsito vem se agravando; precisamos cobrar reaplicação imediata de recursos gerados na região em equipamentos viários’, pondera Izabel.
Outros, no entanto, vêm nessa dubiedade risco de difusão do foco do movimento e fragmentação da resistência popular. ‘Não podemos concordar com essa lógica de aceitar tudo; encher de prédios para depois correr atrás de água, de esgoto e de mobilidade, assinala Zoraia. ‘Sem água, esgoto e mobilidade, o destino do Sul da Ilha será o colapso se não conseguirmos barrar esse modelo’, sentencia o ex-delegado distrital do Campeche no plano diretor e atual presidente da Associação de Amigos do Pacuca (Parque Cultural do Campeche), Ataíde Silva. (Foto: Leonardo Sousa/PMF/Divulgação/JC).
