15 de setembro de 2026

CRISE climática avança, acende sinal de alerta e impõe desafios a Florianópolis

Angelo Poletto Mendes/Redação JC

Qualquer vento ou chuva um pouco mais intensos, que até há alguns anos poderiam passar quase despercebidos, hoje acendem o sinal de alerta e geram apreensão na maioria da população. Esse é o sintoma mais latente de uma nova realidade que permeia a vida de todos nesse momento: a crise climática. Considerado polêmico e até desprezado por alguns há pouco tempo, o evento saiu do imaginário e sem pedir licença se instalou no nosso cotidiano.
‘O aumento da frequência dos extremos climáticos já é concreto, científico, não se trata mais de achismo’, pontua biólogo e ex-professor da UFSC, João de Deus Medeiros, reconhecido como uma das principais autoridades ambientais catarinenses. Atual membro do Conselho Nacional do Meio-Ambiente (Conama), Medeiros ressalta que a crise climática vai além do El Niño, fenômeno severo que acomete o planeta neste momento.
Eventos extremos com inundações, deslizamentos, terremotos, maremotos e até o mais recente colapso de uma geleira no continente asiático estão interligados e tendem ser cada vez mais frequentes em todo o planeta. Em meio a essa nova conjuntura, o biólogo vê a capital numa situação preocupante. ‘’Florianópolis só não está em situação dramática ainda por questões geográficas, na comparação com outros municípios do estado, mas no âmbito de gestão, infelizmente a situação é similar’, assinala.
Para Medeiros, a capital caminha na contramão da prevenção, fomentando uma expansão predial geométrica após a vigência do novo e polêmico plano diretor. ‘Aqui, temos até um estímulo perverso; ao invés de se protegerem as áreas de risco, se criam dispositivos de incentivo à sua ocupação’, comenta. ‘Esse incentivo absurdo ao adensamento adotado na cidade impõe uma situação de perigo real e iminente à população, além de afetar a qualidade de vida’, afirma.
Segundo ele, há mais de 10 anos já existe um mapeamento de áreas de risco, encostas e planícies inundáveis para nortear o desenvolvimento sustentável da cidade, que vem sendo solenemente ignorado. Medeiros afirma que movimentos comunitários denunciaram 26 irregularidades no atual plano diretor, das quais 13 teriam sido acatadas pelo Ministério Público e seis já contestadas. A atual política urbana imposta à capital, na avaliação do biólogo, já seria incompatível em situação de normalidade e se torna ainda mais grave no atual contexto.
Qualquer evento climático, mesmo que de menor gravidade, de acordo com o biólogo, já tem potencial para afetar centenas de pessoas, com alagamentos prolongados e riscos vinculados ao solo encharcado. Isso sem falar no fenômeno da maré alta que vem impactando a orla da capital de forma cada vez mais intensa. A impermeabilização intensiva do solo, alerta ele, compromete a própria recarga dos aquíferos, que dá suporte ao abastecimento de água da cidade.
 Estudos que vieram à tona recentemente na capital já cogitam a futura necessidade de uso da água marinha como alternativa de abastecimento do município.. A estrutura de defesa, na opinião do ambientalista, também é precária e voltada essencialmente a medidas reativas pouco organizadas e de baixa celeridade, como foi a distribuição de telhas após a chuva de granizo que, apesar da sua importância social, se prolongou por mais de 10 dias após o evento climático.
CAMPECHE – Em meio a esse cenário, foi dada a largada recentemente à elaboração do Plano Distrital do Campeche, sobre o qual paira o temor de que seja imposto novamente como ‘prato pronto’, como teria ocorrido com o processo revisional. Movimentos populares locais entendem que a participação popular nesses processos tem sido meramente protocolar, apenas para dar ‘verniz’ legal.
Dirigentes locais preveem que os planos distritais serão direcionados para abrir novos flancos à verticalização, em pequenas vias até então imunes. ‘Infelizmente, não temos expectativa de algo diferente no Campeche, demais bairros do Sul e na própria capital’, admitiu a arquiteta Zoraia Guimarães, do Fórum Popular do Pântano do Sul e integrante do Coletivo ‘Floripa Indignada’. ‘A única saída será a mobilização’. (Foto: Andy Puerari/PMF/Divulgação/JC)